Mercúrio, Lâmpadas e Logística Reversa: qual o cenário no Brasil e na Europa?

O mundo está com os olhos voltados ao Brasil por conta da Rio+20. Lá, todos os assuntos imagináveis relacionados ao futuro do planeta estão em pauta. E, curiosamente, uma lei que vai mudar a face ambiental do país e criar uma série de novas oportunidades econômicas não tem sido muito lembrada. Trata-se da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que criará um processo permanente para a destinação final dos produtos – e, em paralelo, um mercado milionário, movimentado por fabricantes que contratarão empresas especializadas para tratar todos os produtos por eles fabricados e que já tenham esgotado sua vida útil junto aos consumidores.

Este cenário vai possibilitar uma relação mais adequada e completa da sociedade com tudo aquilo que é consumido – e, com isso, ganha destaque um dos itens mais comuns do nosso cotidiano, cujo potencial poluidor é pouco conhecido: as lâmpadas contendo mercúrio, mais conhecidas como “lâmpadas fluorescentes ou econômicas”. Todas elas carregam consigo uma quantidade de mercúrio suficiente para contaminar 15 mil litros de água. Basta pensar que o Brasil comercializa mais de 250 milhões de lâmpadas fluorescentes por ano, entre o uso residencial, urbano e industrial, e que apenas 14 milhões são destinadas adequadamente, para dimensionar o tamanho desta operação. O descarte, descontaminação, reciclagem e reaproveitamento de suas matérias-primas torna-se assim um trabalho primordial para a preservação do meio ambiente e uma atraente fonte de receitas no médio e longo prazo.

Poucas empresas atuam neste setor no Brasil. A principal delas é a Apliquim Brasil Recicle, detentora da certificação ISO 14001 em sua unidade de Paulínia (SP), e que conta com unidade de descontaminação em Indaial (SC) e uma central de armazenamento de lâmpadas no Rio Grande do Sul. Única no país com processo ambientalmente licenciado para recuperar o mercúrio de diversos resíduos, a Apliquim Brasil Recicle é a líder de mercado no tratamento, descontaminação e reciclagem de lâmpadas fluorescentes, atendendo mais de 3 mil clientes como Natura, Renault, Lâmpadas FLC, Brasil Foods e Philip Morris. Fruto da união de duas empresas, a adquiriu reputação latino-america devido ao trabalho desenvolvido ao longo dos anos junto às indústrias de cloro-soda: mais de 120 toneladas de mercúrio foram descontaminadas em quase 30 anos de atividades.

É por conta da expertise na gestão de resíduos mercuriais que a companhia foi convidada para representar o setor em um encontro internacional realizado recentemente em Brasília, no final de maio, para discutir projetos e alternativas à gestão de mercúrio e seus resíduos no ambiente latino-americano. O CEO Eduardo Sebben, biólogo pós-graduado em Gestão do Meio Ambiente e mestre em Engenharia Ambiental, foi a Brasília a convite do Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente e do Centro Tecnológico Nacional de Descontaminação de Mercúrio da Espanha. Ao lado de líderes de governo, pesquisadores e técnicos da América Latina, Caribe, EUA e Europa, a liderança da Apliquim Brasil Recicle traçou um panorama da realidade e dos desafios que o Brasil enfrentará nos próximos anos para que a logísticareversa de lâmpadas se concretize no país – e para que as lâmpadas deixem de ser um agente contaminante para transformarem-se em uma fonte de recursos como vidro, alumínio e especialmente de mercúrio. “O país está realizando muitos esforços rumo à implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que nos próximos anos resultará na esperada Logística Reversa para diversos produtos, provocando uma nova onda de negócios e oportunidades ligadas à gestão ambiental. No caso das lâmpadas, estamos trabalhando fortemente com a cadeia de distribuição e com o governo, com o intuito de concretizarmos o sistema reverso para lâmpadas”, disse o especialista. Devido ao crescimento econômico, o Brasil se tornou um dos países que mais consome lâmpadas contendo mercúrio no mundo. “Como 94% das lâmpadas sendo jogadas no lixo ou em aterros sanitários, aumenta-se o risco à saúde das pessoas e `degradação ambiental, já que o mercúrio é um metal tóxico e extremamente volátil”, acrescenta Sebben.

 

A legislação europeia para lâmpadas e mercúrio – e o modelo da Espanha

 

Na Europa, já existe um modelo implantado para o manejo do mercúrio reaproveitado. A legislação europeia determina que os resíduos de mercúrio metálico só podemser armazenados por até cinco anos, e após este período devem ser recuperados e reconvertidos para outros usos. Entretanto, como é proibida a exportação e a importação de mercúrio na União Europeia, visando eliminar seu comércio transfronteiriço, há um excedente deste metal no continente – o que obrigou o continente a desenvolver tecnologias para seu armazenamento permanente. “A União Europeia quer ter certeza dos métodos mais seguros para o armazenamento permanente do mercúrio e evitar a reversibilidade deste tipo de metal pesado”, disse no encontro em Brasília o representante do Centro Tecnológico Nacional de Descontaminação de Mercúrio da Espanha, Manoel Ramos.

Nesse contexto, os espanhóis assumem posição de destaque devido ao seu longo histórico de extração de mercúrio nas minas de Almadén – a maior e mais importante do mundo, da qual se estima ter sido retirada 30% da matéria-prima de mercúrio na história da humanidade. Como a atividade de extração de mercúrio foi encerrada na Europa, a mina foi transformada em umparque histórico e cultural, voltado ao turismo e ao resgate da história daregião a partir da economia extrativista.

Segundo Ana Garcia González, do Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da Espanha, o país atualmente desenvolve novas tecnologias para estabilização do mercúrio recuperado e excedente, viabilizando um armazenamento seguro para as próximas gerações. “A tecnologia de estabilização, resultado das pesquisas em desenvolvimento pelo Centro Tecnológico Nacional de Descontaminação desde 2006, permite a estabilização do mercúrio em uma espécie de pedra monolítica com até 150 vezes menos emissão de mercúrio que o próprio cinábrio, mineral do qual é extraído o metal”, destacou. O monolito resultante do processo de estabilização é um material inerte, mais resistente que o concreto e com baixas porosidade e impermeabilidade, o que garante segurança para o armazenamento permanente do mercúrio. Para Sebben, esse projeto é muito importante para a Europa, onde existem políticas e práticas bem alinhadas visando o desuso do mercúrio e sua eliminação do mercado. “No caso do Brasil, antes de se pensar em estabilização, é necessário avançar nas políticas de gerenciamento e no tratamento dos resíduos mercuriais. Ainda temos um consumo muito grande de mercúrio desperdiçado no país, pois não possuímos um tratamento adequado de seus resíduos, o que inviabiliza sua recuperação. Portanto não há mercúrio excedente no país quejustifique seu armazenamento permanente ou estabilização como acontece na Espanha. Em primeiro lugar, devemos tratá-lo e recuperá-lo para reuso”, destaca o especialista brasileiro.

Graças a este estágio de desenvolvimento no setor, o descarte responsável e o gerenciamento adequado das lâmpadas fluorescentes também já são realidade na União Europeia. Diferentemente do Brasil, que ainda está por implementar seu sistema de Logística Reversa, a Espanha já possui 8 mil pontos de coleta de lâmpadas distribuídos por todo país. Conforme Alberto Rodriguez, da Associação para Reciclagem de Lâmpadas da Espanha, o país já recolhe 40% dos resíduos de lâmpadas fluorescentes, encaminhando-as para descontaminação e reciclagem, com recuperação do mercúrio contido nesses produtos. “A meta é chegar a 45% até 2013”, informou. Rodriguez explica que o processo de descontaminação existente hoje na Espanha compreende a classificação dos diferentes tipos de lâmpadas, seguido de corte para separação dos terminais e partes recicláveis, e por fim, destilação dos materiais que ainda contém mercúrio. “Trata-se do mesmo processo realizado pela Apliquim Brasil Recicle, o que confirma que estamos operando com tecnologia capaz de buscar sustentabilidade no tratamento das lâmpadas que contem mercúrio, além de já praticarmos os preceitos da logística reversa que ocorre no mundo todo”, observa Sebben.

Fontehttp://www.rumosustentavel.com.br/

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