São Paulo não dá conta do seu lixo reciclável

No sábado (29/5), o jornal Folha de S.Paulo noticiou que a coleta seletiva de lixo na cidade de São Paulo foi reduzida, porque as 17 cooperativas de catadores conveniadas com a prefeitura não tem conseguido separar todo o material recebido. Sem ter onde guardá-lo, as cooperativas nem chegam a descarregar o material dos caminhões especiais. Os resíduos vão parar nos aterros.

As empresas responsáveis pela coleta (de resíduos e de lixo comum) na cidade são duas: a Loga e a EcoUrbis. Em média, elas recolhem 9 mil toneladas por dia de lixo comum e 120 toneladas de lixo reciclável. Este último é coletado em caminhões especiais e entregue às 17 cooperativas conveniadas com a prefeitura. Com o processo de separação mais lento, os caminhões esperam horas para descarregar e, às vezes, precisam retornar lotados às garagens.

De acordo com o Movimento Nacional dos Catadores de Resíduos (MNCR) e com as próprias empresas de coleta, o problema pode ser resolvido com o credenciamento de mais cooperativas. A cidade possui 94 cooperativas, mas apenas 17 são conveniadas, empregando cerca de 1.000 pessoas nas tarefas. É possível, de acordo o MNCR, conveniar todas as 94 cooperativas e elevar para 4.000 o número de cooperados trabalhando na separação dos materiais.

A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Serviços, afirma que as empresas estão falhando na tarefa de entregar os resíduos às cooperativas. Mas empresas e cooperativas rebatem, alegando que faltam centros de triagem e mão de obra para dar a destinação correta aos resíduos coletados.

Esse problema demonstra que ainda faltam políticas públicas para lidar com a questão do lixo e da coleta seletiva. E que é preciso haver uma mudança de atitude fundamental para se encontrar uma solução. Qual seria essa transformação? Encarar o resíduo como matéria-prima para importantes setores industriais. De certa forma, é isso o que faz o estudo Pagamento por Serviços Ambientais Urbanos para a Gestão de Resíduos Sólidos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O documento analisa o montante perdido com a atual prática adotada nacionalmente de simplesmente depositar lixo e resíduos em aterros ou lixões. Se essa prática fosse substituída pela reciclagem, os agentes envolvidos poderiam ganhar até R$ 8 bilhões por ano com vidro, papel, aço, alumínio e plástico. O Ipea lembra que o orçamento do Ministério do Meio Ambiente, que encomendou a pesquisa, foi de um terço dessa quantia. E alerta que o montante pode ser ainda maior se, no cálculo, for incluída a reciclagem de outros materiais, bem como a não contaminação da atmosfera e dos recursos hídricos pelas emissões dos lixões.

Esses números precisam ser calculados porque, ainda de acordo com o estudo do Ipea, por enquanto a coleta seletiva custa mais caro do que a coleta normal. Em doze municípios, o custo médio da coleta de lixo comum sai por R$ 88 a tonelada, enquanto depositar no lixão sai por R$ 22 a tonelada. Já o custo da coleta seletiva sai por R$ 215, cálculo que inclui desde a coleta de porta em porta até a entrega voluntária em postos públicos de recolhimento.

O Brasil produz aproximadamente 240 mil toneladas de lixo por dia, das quais apenas 2,4% têm coleta seletiva, de acordo com o Ipea. E esse pequeno percentual gera um benefício de quase R$ 1,5 bilhão por ano para catadores e, principalmente, para a indústria. Com o uso de matéria-prima reciclada em vez de virgem, a indústria do vidro economiza R$ 18 por tonelada; a siderurgia, R$ 88 por tonelada; a indústria de celulose, R$ 241 por tonelada; a do plástico, R$ 1.167 por tonelada; e a do alumínio, quase R$ 3.000 por tonelada.

O objetivo do estudo é subsidiar a Política Nacional de Pagamentos de Serviços Ambientais Urbanos, que o Ministério do Meio Ambiente quer instituir para garantir às cooperativas de catadores uma renda estável e independente das flutuações do mercado, para que a coleta seletiva não tenha problemas de continuidade.

Por que as empresas responsáveis pela coleta de lixo não assumem de uma vez por todas a coleta seletiva como parte fundamental de sua estratégia e, em parceria com os catadores, não buscam as prefeituras para estruturar a atividade? As empresas que recolhem os desperdícios gerados por uma civilização que está em cheque não deveriam aprofundar a reflexão sobre o próprio negócio? Há dois dilemas, pelo menos, a enfrentar: os custos, cada vez mais altos para os contribuintes, de recolher e depositar lixo em aterro; e os passivos ambientais consequentes dessa atividade. Por meio da coleta seletiva, a empresa não mais recolherá resíduos para depositar num aterro. A empresa construirá uma cadeia com os catadores para recuperar e fornecer matéria-prima para a indústria, preservando recursos naturais, promovendo inclusão social e garantindo ganhos para si, para o mercado e para a própria sociedade.

Por Cristina Spera (Instituto Ethos)

Fonte: http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/pt/4050/servicos_do_portal/noticias/itens/sao_paulo_nao_da_conta_do_seu_lixo_reciclavel.aspx

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